Será o lobolo a principal causa da violência contra a mulher e a rapariga?
Este foi o tema do debate pela ocasião do dia 14 de Fevereiro, Dia de São Valentim, também
vulgarmente conhecido como Dia dos Namorados. O debate realizado online foi organizado
pela Associação de Mentoria da Mulher dos Media – AMMM, no âmbito do projecto Raise
for Freedom (Levante-se pela Liberdade), um movimento para a celebração da mulher. O
projecto é coordenado pela One Billion Raising – OBR, um movimento mundial contra a
violência contra a mulher e a rapariga.
A questão principal foi: Quantas mulheres foram violentadas e mortas antes, durante e após
a celebração do dia 14 de Fevereiro, Dia de São Valentim? Outras mulheres nem sequer
sabem da existência deste dia em que se celebra o amor. A violência, especificamente nesta
data, acontece contra mulheres e raparigas de todos os níveis ou extractos sociais.
Isidro Cavele, activista e ponto focal da AMMM, no Distrito de Chibuto, Província de Gaza,
refere que o lobolo diz respeito a muitas sociedades africanas, incluindo a moçambicana,
independentemente da região e da maneira como é feito, quer forma formal ou informal.
Entretanto, Cavele afirma que a partir de algum tempo esta tradição tende a diminuir por
conta das raparigas que agora “saem por porta de trás”. Mas defende que é preciso sentar-
se nas comunidades e debater o assunto lobolo porque é um simbolismo e diz respeito à
nossa cultura.
Noélia Carajola crê que a violência, até certo ponto, resulta como consequência do lobolo
porque a família, muitas vezes, exige lobolo sem importar-se com as consequências para a
rapariga e para a mulher. Assim, o homem entende que ao lobolar, a mulher passa a ser
propriedade dele e pode fazer o que bem entender dela.
Nelsa Mahumane acredita que depende da forma como as famílias se posicionam perante o
lobolo. Existem algumas famílias que não comercializam as raparigas nem as mulheres.
Essas famílias vêm o lobolo como um acto de tradição e cultura. Mas, outras famílias
consideram que o lobolo é uma forma de enriquecimento e não algo cultural.
Citou como exemplo, famílias que argumentam que a formação académica da mulher é
cara, por essa razão o homem deve compensar os gastos que os pais da rapariga fizeram por
ela. Mahumane refere que outra questão da violência está relacionada com a depreciação,
submissão e subalternação da mulher, muitas vezes, por não poder gerar filhos.
Julieta Langa, Presidente da AMMM referiu que no processo do lobolo costuma haver
muitos intervenientes. Mas os jovens, ultimamente, trazem uma outra forma de
abordagem. Para alguns casais jovens, com ou sem o lobolo, eles vivem juntos. Julieta
Langa questiona porquê existem variações no lobolo? Será apenas um teatro? Agora a
tendência mudou muito, pois algumas famílias pedem muito dinheiro para o lobolo e outras
não.
Celsa Chemane refere que há muito tempo, o lobolo era feito de forma muito simples e
simbólico. Nos tempos, com um púcaro de amendoin fazia-se o lobolo, mas, hoje em dia,
algumas famílias da rapariga querem resolver seus problemas exigindo vários bens e valores
monetários ao genro. Essas exigências podem ser ou contribuem para a violência contra a
mulher. “Antigamente, com o amendoin era possível informar aos antepassados que a neta
passa a viver na família do marido dela”.

Isidro Cavele disse ainda que em Chibuto, o lobolo é tido como um acto simbólico, pois a
mulher que sai da casa dos pais após o lobolo, tem todo o protocolo e aconselhamento que
vai guiá-la na vida e no lar.
Para Teresa Manjate o lobolo é uma instituição, embora agora exista uma mistura de
culturas. Por exemplo, na zona Sul de Moçambique onde predomina o sistema patriarcal, a
família paterna é quem decide como deve decorrer o lobolo, diferente das zonas Centro e
Norte onde as decisões são tomadas pela família materna devido ao sistema matriarcal.
Um outro aspecto a ter em conta que cria desavenças durante o processo do lobolo é a
situação em que os casais separam-se e, as crianças são criadas pela mãe. Quando chega a
altura do lobolo, a família paterna não é dada relevância por ter estado ausente na criação e
educação da rapariga.
Para Teresa Manjate, não importa muito se o pai participou ou não na educação da filha. O
aspecto mais importante é que o pai e a mãe devem participar no lobolo da filha.
Teresa Manjate, parte do pressuposto que o casal une-se e entende-se e, chega à conclusão
que quer formalizar sua relação perante os pais e à sociedade. Mas, passado algum tempo o
homem começa a violentar a mulher. Ela, entende que a violência tem muito a ver com o
carácter do indivíduo.
“Então um homem que compra um fato muito caro e que gosta, não queima nem maltrata o
seu fato. Então a violência tem a ver com o género, simplesmente com o facto de se ser
mulher. Não há justificação para a violência e, o lobolo não deve ser usado para justificar tal
acto”.